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A solução das tecnológicas portuguesas para o Brexit? Investir no Reino Unido

É a aliança diplomática mais antiga do mundo e nenhum dos lados pretende romper com a história. As trocas comerciais de bens e serviços entre Portugal e Reino Unido rondam os 11 mil milhões de euros por ano, com vantagem para Portugal na balança.

Com o fantasma do Brexit a pairar sobre a Europa há mais de três anos, têm-se multiplicado os estudos e contas sobre o peso que a saída do Reino Unido da UE terá na economia nacional. As previsões mais recentes são do banco Santander, e apontam para um impacto de 0,4% no PIB português em 2020. Irá o tratado de Windsor resistir ao Brexit?

No Department of Internacional Trade reina o otimismo. A organização do Governo britânico que promove a expansão internacional das empresas inglesas, ao mesmo tempo que procura atrair investimento estrangeiro para o Reino Unido, apoiou no último ano 13 projetos portugueses, que se instalaram ou expandiram a operação que já tinham naquele país. O esforço resultou num investimento total de 1,4 mil milhões de euros e na criação de quase 700 postos de trabalho em terras de sua Majestade.

A maior parte são tecnológicas, a quem o Brexit não assusta. Para algumas, até é visto como uma oportunidade. É o caso da Blueworks, uma empresa que faz software para unidades de oftalmologia. Paulo Barbeiro, CEO, afirma que o divórcio europeu foi um dos motivos que levou a empresa a rumar até Londres.

“A nossa história com o Reino Unido tem dois momentos. Vendemos software para lá pela primeira vez em 2013 e, em 2018, percebemos que para apostar naquele mercado, fazia sentido ter presença física”, explica Paulo Barbeiro ao Dinheiro Vivo. Segundo o responsável, “ter uma empresa aberta no Reino Unido dá mais confiança aos clientes, pois em caso de Brexit, têm uma empresa sediada no país com que podem continuar a articular-se, dentro do quadro legislativo a que estão habituados”. Foi, aliás, a “potencial alteração do panorama legal” que fez a Blueworks antecipar-se ao desfecho do impasse e fazer as malas, de modo a “precaver possíveis problemas”. A operação britânica da Blueworks ainda está a dar os primeiros passos, mas a empresa está a “trabalhar oportunidades de negócio” que deverão permitir fazer contratações em 2020. A ambição é partilhada pela Infraspeak. A startup portuguesa de software de gestão de equipamentos também decidiu dar o salto para a ilha já o intricado processo do Brexit ia a meio. A operação começou a ser montada em 2018 e já este ano foram feitas as primeiras contratações. Em 2020 a equipa deverá crescer.

Filipe Ávila da Costa, CEO da Infraspeak Foto: Department for International Trade

“Apesar do Brexit, o mercado inglês continua a ser um dos principais do mundo. E a Infraspeak foi criada com o objetivo de ser uma referência mundial. Só o iremos ser se estivermos nos mercados mais competitivos e estar no Reino Unido é como jogar na Liga dos Campeões. Pode ser o nosso trampolim para países como os EUA, o Canadá ou a Austrália”, conta Filipe Ávila da Costa, co-fundador e CEO da Infraspeak. Para a startup, cujo software é usado na gestão de infraestruturas como hotéis, aeroportos ou hospitais, Londres é como um grande parque de diversões. E não é o Brexit que vai parar o carrossel, acredita o responsável. “Em termos de infraestruturas, Londres sozinha tem a dimensão de alguns países inteiros da Europa. Tem cinco vezes mais hoteis que em Portugal inteiro. Ao mesmo tempo, o Brexit vai criar um problema de recursos humanos no país, as equipas técnicas terão de se reiventar e fazer o mesmo ou mais com menos recursos. Isso é uma oportunidade para nós. O impacto está planeado e vai existir, mas encaramos sobretudo como um desafio”. Um desafio que “quanto mais cedo vier melhor”, conclui Filipe Ávila da Costa, porque nesta altura, “as pessoas já estão cansadas da incerteza”.

Para a Truewind, quando a incerteza chegou o Reino ainda estava unido à União Europeia. A empresa de software baseado em Outsystems decidiu rumar a Inglaterra em 2016, ainda o furacão Brexit estava em intensidade mínima. Quando a tormenta ganhou força, Luís Vieira, presidente da empresa, admite que pensou “duas, três e quatro vezes” na opção tomada, e chegou a pensar em voltar para trás. No fim, feitas as contas, percebeu que talvez os estragos não fossem assim tantos, apesar da desvalorização da libra, que também apanhou os responsáveis de surpresa. “Fizemos um plano de negócio com a libra a 1,4 euros e hoje ronda os 1,15. Isso sim foi uma grande diferença”. Ainda assim, o Reino Unido já pesa hoje 15% na faturação da empresa. “Para o nosso negócio, especificamente, o Brexit não terá muito impacto. Fazemos software, que é imaterial, não é preciso importar ou exportar. É verdade que tivemos medo, mas depois de pensado friamente vimos que não fazia sentido. Vamos, aliás, reforçar a equipa por causa do Brexit. Se houver entraves à deslocação de pessoas já teremos recursos para implementar os projetos a partir de lá”, salienta Luís Vieira. Para já, a Truewind emprega seis pessoas no escritório de Kings Cross, na capital londrina, onde tem vista para o futuro quartel-general da Google. A meta para o próximo ano é crescer até 10 ou 20 colaboradores. A distinção que a Truewind recebeu esta terça-feira na Embaixada britânica apanhou o líder da empresa de surpresa. Luís Vieira reconhece que o prémio “pode abrir portas” no Reino Unido, uma vez que “foram os ingleses a premiar uma empresa portuguesa”. A 11ª edição dos DIT Business Awards distinguiu ainda as empresas Constructel, A4F, S24 Group e EDP.

dinheirovivo.pt