Porta Lusa

       
Login | Registar


Resultados por Página:
10 20 50 100

Da selva de Dunquerque: Eu só tenho um sonho: chegar ao Reino Unido

Ao chegar à Selva, encontramos Harem. É iraquiano, tem 26 anos, e explica-nos que chegou à cidade de Grande-Synthe há um mês. Harem detesta a França "porque todos os dias tentam levar-nos para a prisão ou para centros de deportação. Penso que todos os países são melhores que a França". Está à procura de uma oportunidade, "chegar ao Reino Unido, porque é o meu sonho".

As condições na Selva são precárias e, segundo Harem, não existe humanidade porque como explica "nos nossos países, no Iraque, na Síria, no Irão, quando alguma coisa errada acontece, a França, os Estados Unidos, a Alemanha, a Holanda, todos os países querem ajudar-nos. Mas não quando estamos aqui. Aqui ninguém nos ajuda.".

Em Puythouck formou-se uma comunidade unida pelo sonho de encontrar uma vida melhor. Quase todos fugiram de países em guerra e continuam a sentir ameaças quando são acusados de serem terroristas, como explica Mahamud: "na Selva, todos somos seres humanos. Os terroristas do ISIS destruíram os nossos países e por isso tivemos que sair de lá, mas todos os dias deste inverno, na selva, a polícia destrói as nossas tendas. O que é que fizemos para isto acontecer? Onde estão os direitos humanos? Eu penso que nesta França não existem Direitos Humanos."

Para este jovem iraniano, os migrantes são vistos como terroristas, "nós não somos terroristas, nós somos pessoas normais que tiveram que abandonar os seus países porque os terroristas do ISIS os destruíram", explica Mahamud.

A ONG Médicos do Mundo desloca-se três vezes por semana à Selva para prestar assistência médica. O trabalho é partilhado com a Cruz Vermelha. "Muitos têm diarreias por causa da chuva e do frio", explica o médico.

É com a ajuda da associação Mobile Refugee Support que muitos migrantes conseguem comunicar com a família. Seis dias por semana, Charly chega ao campo de Puythouck numa carrinha com geradores e Wi-Fi partilhada por centenas de pessoas que se juntam perto do lago de Puythouck.

Outra associação presente duas vezes por semana em Dunquerque é a Care for Calais. Trata-se de uma associação inglesa, com sede em Calais, encarregue de fazer distribuição de roupa, refeições e bebidas quentes às pessoas que estão na região.

Um voluntário desta associação explica que os migrantes estão, quase sempre, "motivados e bem-dispostos" apesar de tudo o que vivem.

Na quarta-feira, 28 de novembro, a polícia deslocou 200 pessoas numa das entradas do bosque. No passado dia 30 de novembro, a associação Emmäus distribuiu mantas à pessoas que vivem ao relento na Selva.

A diretora da Emmaus Dunquerquer, Sylvie Desjonquères, não esconde o cansaço: "Destruíram as tendas de 200 pessoas e, como pode ver, é isto que acontece quando distribuímos mantas. É uma loucura, está frio e húmido, muitos pedem abrigo e não há espaços. Estamos cansados."

Sylvie Desjonquères explica que espera uma ajuda do Estado que nunca mais chega. "Estamos à espera de ajuda financeira do Estado que possa aliviar esta situação. É possível, mas não acontece e não sabemos porquê. Vivemos num país de ricos e é tristemente risível pensar que não conseguimos encontrar respostas para que estas pessoas se sentem, descansem, e possam ter direito às suas escolhas de vida."

Rebo Ranya quer viver no Reino Unido com o irmão. N?o consegue passar para lá por ser muito difícil, "tento todos os dias, mas não consigo porque é muito complicado. Preciso de encontrar alguém que me leve, alguém que me abra a porta do camião. E eu entro, é a única oportunidade. Por pessoa, cobram 4000 libras para passar", descreve Rebo Ranya.

Em novembro, o ministro do Interior esteve em Dunquerque. Christophe Castaner afirmou que esta selva não é aceite pelo Estado: "N?o é assédio impedir que as pessoas vivam em condições desumanas, é pelo contrário um ato de humanidade. Devemos ser firmes onde for necessário, mas dar prova de formas de humanidade. Não podemos mostrar o mínimo sinal de fragilidade do Estado para que este campo não volte a surgir."

No final do mês de novembro, dezenas de famílias foram alojadas. Foi o caso de Ranzat, 34 anos, com as duas filhas Tama e Lisa, de três e oito anos. Sem acompanhamento psicológico e com uma fragilidade evidente no olhar, Ranzat descreve as tardes passadas no bosque de Puythouck e as noites sem dormir à procura de passar para o Reino Unido.

Lisa tem oito anos não vai à escola há mais de um ano, mas continua a ter aspirações. Apresenta-se como estudante e descreve a escola onde estudou até ao quarto ano. "Vim do Iraque com a minha mãe e o meu pai à procura de uma vida melhor", conta.

Apesar destas intervenções do Estado, as condições agravam-se dia após dia, aponta o presidente da câmara de Grande-Synthe, Damien Carême, que fez um ultimato a Emmanuel Macron para que crie centros de abrigo até esta semana.

"Negocio todos os dias com o Estado para que organize centros de acolhimento porque me proíbem de o fazer. Esta situação arrasta-se há alguns anos e é desumano deixar que as pessoas vivam nestas condições. Só falta que o Estado decida e aplique meios», descreve o autarca.

À saída da selva, há um centro comercial com decorações natalícias, centenas de carros chegam e partem ao final da tarde. O parque de estacionamento esconde os acessos da selva de Grande-Synthe. Um esconderijo ilusório de céu aberto que só não vê quem não quer, descreve Rafael: "Ocupam o bosque que é mesmo ao lado. Há despejos regulares, quase todas as semanas. 1200 migrantes sempre, sempre."

tsf.pt