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Nuna Livhaber estreia peça de teatro em Londres

Nuna Livhaber, atriz portuguesa residente em Londres, traz-nos uma peça criativa e inovadora do género Afrofuturista. “I will tell you in a minute” transporta-nos para 2039, onde uma mulherportuguesa viaja ao passado para comunicar ao seu eu jovem que há esperança na sociedade, pois racismo, xenofobia, homofobia e outras formas de abuso deixarão de existir. Um manifesto sobre ser-se negro no contexto Europeu, que estará em cena dia 10 e 11 de Novembro no “The Cockpit”.

                                                                                                                                                                               

 ENTREVISTA DE SARA ALVES

 Como surgiu a ideia que inspirou a criação de “I will tell you in a minute”?

Crescer como uma minoria num país Europeu tem certas adversidades e desafios. Eu vivi a minha vida toda em Portugal, cresci na cultura Portuguesa e nunca estive noutro país. No entanto devido à minha cor de pele, vivendo num país que se diz “evoluído”, tive de enfrentar o preconceito. Todas estas situações muito infelizes que tive de experienciar criaram esta necessidade de falar sobre elas. Eu não via este assunto sobre as minorias portuguesas a ser discutido. Não passa na televisão, não há nenhuma série... Às vezes há um documentário ou outro. Mas em termos do trabalho que eu faço, nunca vi a ser explorado. Fala-se sobre este assunto de uma maneira fácil de gerir e eu queria qualquer coisa mais crua e dura. Ao longo dos anos eu fui escrevendo várias partes, apanhando várias histórias e depois em 2018 senti que já era mesmo a altura de escrever esta experiência. A peça não é só a minha experiência como negra em Portugal, também é a experiência de outras pessoas noutros países da Europa, sendo negros ou outras minorias.

Quais os principais temas que abordas na tua peça e a sua importância para quem assiste hoje?

Eu falo da experiência de ser negro na Europa, tanto nascido ou emigrado para a Europa. Eu abordo o micro-racismo. Não aquele racismo macro como neonazi ou de agressão ou violência policial. Eu falo muito das coisas subtis, como “És tão bonita para uma rapariga negra”, significa que há uma diferença de beleza se fores ou não negro. Ou “mas de onde és mesmo?”, conectando que uma pessoa não pode ser oriunda daquele sítio, por causa do tom de pele, mas se fosse um emigrante branco normalmente essa pergunta não seria feita. “Falas tão bem Português”, mas porque é que haveria de falar mal Português. “Porque é que és civilizada”, porque é que não seria civilizada. Estas nuances todas que estão carregadas na nossa história. Há quem diga que “Portugal foi um bom colonizador”, não há bom colonizador quando uma pessoa invade outro país. Se um povo não tem capacidade de admitir os erros, aprender com eles e mudar, então significa que algo está errado. Eu falo muito na peça sobre estes pequenos detalhes, que fazem uma sociedade racista, mas como não têm um impacto tão grande, a maioria das pessoas finge que não existe. A importância para quem assiste é perceber, que temos estes problemas e falar, porque a ideia é sempre conseguir melhorar o país e a sociedade, criando uma harmonia. Esse resultado não acontece se não houver uma conversa.

Afrofuturismo é um género não muito conhecido pelo público. Explica-nos um pouco este género?

Eu também não conhecia o género. Há dois anos, um amigo meu envio-me um artigo sobre Afrofuturismo e eu fiquei muito interessada. Eu já tinha uma ideia do assunto que queria falar, o de ser uma minoria, mas não sabia como explorar. O Afrofuturismo já existe há mais de 50 anos, mas só agora é que está a ganhar visibilidade. Afrofuturismo é esta ideia de pegar na cultura africana ou na diáspora africana e impulsioná-la, transmitindo uma ideia positiva de um futuro forte, cheio de poder e de diferentes energias, onde basicamente as pessoas africanas que passaram por tanto, têm estes super poderes de construir um futuro, bem diferente do que foi o passado dos seus ancestrais. Estes poderes podem ser relacionados com super-heróis como por exemplo “Black Panther” é o filme dentro do género com mais sucesso até hoje, ou pode ser a maneira como as pessoas agem, por exemplo mudar a comunidade ou ajudar os outros. Sim, existe escravatura ou segregação até aos dias de hoje, mas não nos vamos focar sobre nisto. É bom focarmo-nos em todas as possibilidades positivas para o futuro e o Afrofuturismo é muito isto, a celebração do que é positivo.

Como foi o processo de preparação da peça. Desde a ideia até à criação final?

Primeiro levou um ano de pesquisa, ler livros, filmes, música, pois Afrofuturismo não é só um género teatral. Precisei de pesquisar muito para perceber. Eu já tinha o tema, mas faltava qualquer coisa e eu fui inspirar-me no “storytelling”, contar histórias. Eu queria contar histórias que fossem do futuro, passado ou presente e ao contá-las estamos a viajar no tempo. Depois, se eu queria falar de um movimento ou evolução da sociedade, não poderia somente falar da minha vida como Nuna, porque há muito mais outras pessoas que têm diferentes experiências. Então comecei também a entrevistar pessoas e a gravar partes de cada experiência para criar a personagem e isso levou tempo. A personagem sou eu no futuro e no presente. Eu represento o futuro e a outra atriz faz de mim neste exato momento. Viajo para o passado para falar comigo no momento que começo a peça. Esta ideia do encontro e de gerar discussão entre o presente e o passado e como nós queremos ser no futuro. Esta Nuna em palco não só somente eu, mas uma amálgama de histórias, que representa uma comunidade. É mais genuíno e intenso se incluir muito mais vivências. Há ideia de ser uma minoria na Europa, mas a Europa tem muitas culturas e países e em cada lugar vamos ver uma experiência diferente e eu juntei um pouco de tudo para construir esta personagem.

Foi difícil colocá-la em cena?

Se foi difícil colocar a peça em cena? Bem falei com as duas responsáveis pelo Voila! Festival, Charlotte e Amy. Foi logo o primeiro sitio que me candidatei e eu fui logo aceite, portanto não foi difícil numa primeira instância de colocar em cena para a premiere. Tem sido mais difícil comunicar com as pessoas e explicar o porquê de se fazer este espetáculo no sentido de envolver as minorias para o espetáculo. Acho que o desafio não foi tanto pôr em cena, mas transmitir a mensagem. As pessoas têm medo de ouvir falar das coisas que lhe magoam e ver em palco às vezes é complicado. As pessoas tendem a evitar conversas sobre racismo e mais facilmente vão ver uma comédia.

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É a primeira vez que crias uma peça em Londres ou já realizaste outras produções?

É a primeira vez. Eu já trabalhava como atriz anteriormente e escrevia peças, guiões, contos. Nunca pensei que algo que escrevesse fosse publicado. Eu escrevia sempre e guardava. Entretanto quando fiz 20 minutos e as pessoas gostaram, pensei que se calhar o que eu escrevo não é assim tão mau e eu posso mostrar a mais pessoas. É a primeira vez que tive a coragem de expor o meu trabalho.

És produtora, encenadora e atriz. Como está a ser para ti a combinação destas funções?

Esta é a primeira vez a fazer produção, encenação e ter o meu texto publicado. Atriz já tinha feito profissionalmente outra vezes. Combinar todas estas funções é de doidos. Nós começamos este projeto há seis meses para o Voila! e há seis meses que eu não durmo. É trabalho, trabalho, trabalho. Acho que tirei dois ou três dias em seis meses. O resto sempre a trabalhar, maior parte das vezes 14/15 horas por dia. Saio do ensaio como atriz, tenho de ir para casa como escritora e depois ainda tenho que enviar emails como produtora. Depois de manhã tenho de preparar o trabalho como diretora. Chegar ao ensaio e dirigir mas também representar, portanto basicamente é quase trabalhar 24 horas por dia. Sempre a responder a emails e fazer outras funções ao mesmo tempo. Eu tinha por volta de 16 anos quando fiz o meu primeiro trabalho profissional, quase 10 anos de experiência, mas nunca tinha tido um desafio tão grande. Eu fiz o que tive de fazer para acontecer, pois não tínhamos apoios financeiros. Alguém tinha que fazer muito mais horas e muito mais trabalho. Eu não via estas histórias a serem faladas e este trabalho a ser feito. Eu não me via representada em muitas produções, então eu tinha que o criar. Como eu queria por esta visão tinha de ser eu a fazê-lo. Foi esgotante, mas gratificante.

Tens alguma preferência por um destes papeis?

Produção não. Em relação aos outros, tem dias. Há dias que estou muito criativa e não paro de escrever, outros dias tenho montes de ideias de colocar o que escrevo em palco e encenar e há dias que quero voltar à minha simples vida de atriz. Não consigo escolher uma só, mas aquele em que estou mais segura é atriz.

A peça vai estrear-se no final do “Black British History Month”. Fala-nos sobre este evento e como a peça está inserida neste contexto?

O “Black British History Month” é mais do que um evento é uma celebração. Eu quando visitei o Reino Unido não tinha intenções de ficar, mas acabou por acontecer. As minhas amigas mandaram cartas para agências de atores e correu bem. Há quatro anos vim para cá e comecei a criar contactos e ligações. Quando comecei a ver como as minorias trabalhavam no Reino Unido, havia muito mais espaço de conversa do que existia em Potugal. Falamos de representação, inclusão, mudanças. Isso foi algo que me interessou bastante. Quando és uma minoria segregada tens de arranjar formas de te celebrar para sobreviver e aguentar os desafios que encontras permanentemente na tua vida. Este mês é uma forma de celebrar e dar força para os outros 11 meses do ano. O Voilá foi logo a seguir, em Novembro, fazendo com que seja uma celebração contínua das vitórias e persistências da cultura negra.

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A peça dá-nos uma ideia deveras positiva, tens esperança que a sociedade irá evoluir nesse sentido?

Sim, tens de ser positivo, senão porque razão estás vivo. Nós já vimos que as coisas podem mudar. A minha avó não podia usar calças, a minha bisavó não podia trabalhar, as mulheres não votavam por isso as coisas mudam. Há 52 anos nos EUA, eu não poderia casar com alguém branco. Racismo é uma doença, ensinado e faz parte do sistema e tudo o que é criado pelo homem também pode ser destruído, vamos trabalhar para isso. Adorava ter nascido numa sociedade perfeita em que a minha cor de pele não significaria nada, mas significa. Eu sofro segregação e aminha voz não é ouvida, só tenho duas escolhas aceitar e nada fazer ou lutar contra isto e tentar melhorar a sua vida ao máximo. Enquanto tiver forças eu continuarei a lutar, criando as minhas peças.

Qual é a mensagem que queres transmitir na tua peça?

Há muita coisa má, que escondemos debaixo do tapete. Temos que falar mesmo que custe. As pessoas brancas têm de deixar de ser tão sensíveis com a sua fragilidade e têm que perceber que possuem preconceito. E quando ouvem que têm preconceito, têm que admitir, parar e mudar. De outra forma não evoluímos. Existem pessoas com ódio, mas essas já sabemos o que contar. O problema são as pessoas que dizem que não têm preconceito, pois têm um amigo ou uma mulher negra, mas que continuam com ações que oprimem. Podem não ter maldade quando as fazem, mas ainda existem. A luta é por aí, informar e educar essas pessoas e desmantelar ideias preconcebidas, focando no que é positivo. As coisas não vão mudar de repente, mas vale a pena o esforço.

“I will tell you in a minute” estará em cena e será atuada em várias línguas, nomeadamente Inglês, Português e Espanhol. Porquê a escolha desta variedade linguística?

Português por ser a minha língua, Espanhol porque é a minha segunda e claro falo Inglês. São os três sítios que já vivi e onde falei com pessoas sobre as adversidades culturais nesses países. Esta variedade enriquece o espetáculo, pois somos mais do que um só sítio. O racismo é um sistema que existe em todo o lado, mas dos três países aquele que se esforça na luta e estabelece mais diálogo sobre estes assuntos é o Reino Unido.

Onde podemos ver a peça e comprar ingressos?

“I will tell you in a minute” vai estar dia 10 de Novembro às 7 horas e 11 de Novembro às 8h30 no teatro “The Cockpit”. Os bilhetes podem ser comprados no teatro ou no site oficial do teatro: https://www.thecockpit.org.uk/show/i_will_tell_you_in_a_minute Ou na página oficial do Voila! Europe Festival: https://www.voilaeuropefestival.com/sales/voila-europe/i-will-tell-you-in-a-minute A peça vai voltar dia 8 de Dezembro no festival Talos, Omni Bus Theatre às 9 horas