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Adriana, a portuguesa que arranja dormida a 300 refugiados em Bruxelas. Todas as noites

“A polícia vinha dos quatro cantos do parque, todas as manhãs, às sete da manhã. Acordavam toda a gente e começavam a deter as pessoas.” As manhãs na praça Maximilien — um grande espaço verde no coração de Bruxelas em frente ao departamento de imigração belga — passaram a ser um inferno para os refugiados ali acampados, que já tinham fugido dos seus países e da selva de Calais, onde esperavam ansiosamente por uma oportunidade de passar para o Reino Unido. “O que acontecia era que a polícia chegava e toda a gente começava a correr para longe dali, deixando tudo para trás. Mochilas, roupa, sapatos, sacos-cama, tudo o que tinham ficava ali, porque muitos estavam a dormir e não tinham tudo pronto a seguir. Com a polícia vinham os serviços municipais de limpeza, que apanhavam tudo o que ficava e levavam para destruir numa incineradora.”

Há já um ano que Adriana Costa Santos, 23 anos, tinha saído do conforto de Lisboa para Bruxelas, para ajudar na crise dos refugiados. Mas, até àquela altura, o seu trabalho era feito à secretária, na receção do edifício onde funcionam os serviços da Plataforma Cidadã de Apoio aos Refugiados, a organização para a qual trabalhava. Foi daquela secretária que assistiu às rusgas da polícia belga e foi ali que decidiu que chegara a hora de agir.

Material como sacos-cama é distribuído pelos voluntários da plataforma aos refugiados no parque (Fotografia: DR)

Se a polícia chegava às sete, a ajuda chegava às seis. Adriana e mais três voluntários saíam das suas casas de madrugada e, uma hora antes de as autoridades entrarem no parque, tratavam de acordar as centenas de refugiados que ali estavam a pernoitar. Foi assim todos os dias durante um mês e meio, entre agosto e setembro de 2016.

“O que nós fazíamos era acordá-los de manhã para eles poderem fugir. Fazíamos uma recolha das necessidades básicas, víamos quem não tinha sapatos, quem não tinha saco-cama, tentávamos distribuir material da plataforma por todos. Quando a polícia chegava, nós recolhíamos todo o material, guardávamos tudo durante o dia, e tornávamos a distribuir tudo pelas pessoas quando a polícia ia embora”, lembra. A ação da equipa de Adriana não agradou à polícia e as discussões eram frequentes. “Diziam-nos que faziam aquilo pela nossa segurança”, recorda a portuguesa, que teve de dizer aos voluntários para manterem a calma em muitas situações.

Mas havia outros problemas. Todos os dias, dezenas de sacos-cama eram retirados pela polícia e pelos serviços de limpeza municipais, e os refugiados começaram a ficar sem local onde dormir. Adriana também arranjou solução. Organizou uma campanha de recolha de fundos para comprar sacos-cama, que deu para mais de 400. Determinada a marcar uma posição, e a mostrar que a atitude das autoridades era errada, quando se apropriavam dos bens daquelas pessoas, Adriana teve outra ideia. Cada pessoa que contribuía para a campanha assinava um saco-cama, que assim ficava marcado com um dono “europeu”. “Quando os sacos foram confiscados nas rusgas policiais, fez-se uma queixa coletiva por roubo de pertences, com mais de 70 cartas enviadas à procuradoria. O material acabou por não se recuperar, mas foi uma questão simbólica.”

Chegou o frio: Adriana conseguiu arranjar casas para todos dormirem

A pressão social conduziria ao fim das rusgas policiais permanentes. “Havia muita gente que via aqueles maus-tratos, a polícia acabou por desistir”, recorda Adriana. Os voluntários conseguiram inclusivamente negociar um acordo com as autoridades. Enquanto houvesse grupos de voluntários a prestar apoio aos refugiados no parque, a polícia não entrava.

Com a chegada do tempo frio, contudo, não bastava que as rusgas terminassem. Era necessário encontrar alojamento para mais de três centenas de pessoas que continuavam a dormir ao relento todas as noites. Como muitos não queriam pedir asilo na Bélgica, por pretenderem seguir para o Reino Unido, nem sequer puderam ter acesso ao programa que o governo põe em prática nos meses frios, permitindo o acesso a todos os cidadãos legais a edifícios onde passar as noites.

Adriana coordena uma equipa de voluntários na distribuição de alojamento temporário a refugiados (Fotografia: DR)

Entre o final de agosto e o início de setembro, altura em que eram ainda frequentes as rusgas policiais, Adriana pôs então em marcha um novo projeto, mais ambicioso: organizou uma rede de voluntários por toda a cidade que se disponibilizava para acolher refugiados em sua casa. Na primeira noite, arranjou casa para oito pessoas. Na segunda, para 25. Depois, mais de trinta. Hoje, são mais de 300 as pessoas que Adriana consegue pôr a dormir em casas de belgas todas as noites.

Tudo é feito através do Facebook. A jovem criou um grupo a 12 de setembro, que hoje já tem mais de 21 mil membros. Todos os dias, é criada uma sondagem a que os voluntários podem responder dizendo se estão disponíveis, quantos lugares têm em casa e se podem ou não oferecer transporte. “Durante o dia, troco dezenas de chamadas e mensagens com pessoas que querem saber como podem ajudar. E isto entretanto já está relativamente oleado. Quem precisa de alojamento já sabe que tem de estar às 20h00 no parque”, explica numa conversa por telefone com o Observador.

Adriana dedica grande parte do seu tempo a lutar pelos direitos dos refugiados em Bruxelas (Fotografia: DR)

Às 20h00, Adriana já lá está. De telemóvel na mão a acertar todos os pormenores e a distribuir as pessoas pelas casas. Há quem não tenha casa disponível, mas que se oferece para transportar quem precisa de alojamento entre o parque e a casa onde vai dormir. Até à meia-noite, à uma ou às duas da manhã, os voluntários ficam na praça até toda a gente ter onde dormir. Mesmo que, como acontece muitas vezes, cada refugiado durma numa casa diferente todas as noites, algo que acontece com frequência. Mas também existem histórias de amizade: “Há pessoas que foram a primeira vez, ficaram em contacto, e hoje até já têm a chave de casa”.

Durante os primeiros seis meses que viveu em Bruxelas, Adriana escreveu um conjunto de crónicas para a revista Visão a relatar o dia-a-dia no campo de refugiados. Escrevia sobretudo sobre as pessoas que conhecia. Há a história da síria Rand, que fugiu à guerra no seu país enquanto ia às aulas de música; a de Mustafa, o miúdo normal que estudava engenharia em Alepo e que ainda escreve todos os dias no braço o nome da namorada, que ficou na cidade então controlada pelo Estado Islâmico; ou a dos rapazes de Mossul, que conseguiram escapar de forma incrível ao controlo dos jihadistas na cidade iraquiana.

Mais do que refugiados, são amigos, garante. “Quando passas 20 horas do teu dia com as mesmas pessoas, há relações que se criam. Antes da nova crise, o que eu fazia com os sírios e os iraquianos não era ajudar refugiados. Era ajudar amigos que precisavam de alguma coisa. Já tínhamos passado a fase de dar comida ou roupas, o que fazíamos era ajudar a encontrar uma escola para aprender isto ou aquilo, encontrar trabalho, arranjar uma casa. Agora é uma situação diferente”, lamenta Adriana.

Escrever as crónicas foi uma forma de ampliar o impacto das suas ações. “Queria dar uma voz a esta gente, ajudar a mudar as mentalidades e os preconceitos errados sobre os refugiados”, explica. Nunca mais conseguiu escrever, por falta de tempo. Quando passou a ter de trabalhar para sustentar os estudos e as despesas, deixou de enviar artigos. Mas voltar a escrever está nos planos de Adriana, que considera essa uma parte fundamental do seu trabalho.

“Eu vim de Portugal de propósito para aqui, não me mandem de volta para o Facebook”

A vida de Adriana mudou totalmente e o que ia ser uma experiência de um mês, já é um projeto que dura mais de dois anos.

Quando terminou a licenciatura em Relações Internacionais, na pacatez de Lisboa, no seio de uma família de classe média, em 2015, a crise dos refugiados estava a atingir proporções dramáticas no sul da Europa. Só nesse ano, o número de requerentes de asilo nos Estados-membros da União Europeia ultrapassou largamente a barreira do meio milhão.

As imagens repetiam-se: barcos sobrelotados de imigrantes ilegais eram resgatados diariamente no Mediterrâneo; milhares conseguiam chegar à costa da Grécia e da Itália, após a perigosa travessia marítima em embarcações sem condições de segurança; outros tantos morriam no caminho. Naquele ano, o corpo de Aylan Kurdi, menino sírio de três anos que apareceu numa praia turca sem vida, tornava-se um símbolo da crise migratória.

Adriana assistiu a tudo isto pela televisão e através das redes sociais. “Aquilo tudo preocupava-me imenso. Via todos os dias aquelas imagens horríveis de quem chegava à Grécia vindo do Mediterrâneo, e queria fazer alguma coisa concreta para ajudar aquelas pessoas”, explica. Adriana seguia com particular atenção as questões migratórias e de direitos humanos e sempre quis trabalhar nessa área. Chegou até a pensar fazer um mestrado em direitos humanos.

No final da licenciatura, contudo, decidiu que não queria prosseguir os estudos de imediato. Preferiu parar um ano, “para fazer voluntariado, viajar e trabalhar”. Mas, no final do verão de 2015, ainda não tinha planos para esse ano. Foi então que uma amiga, que em setembro se mudou para Bruxelas, passou pelo parque Maximilien, viu o que se passava ali e lhe telefonou. Naquele espaço verde, mesmo em frente ao edifício do departamento de imigração do governo belga, tinha aparecido um campo de refugiados improvisado, que cresceu descontroladamente — e que cresceria ainda mais com o desmantelamento da “selva” de Calais, no final de 2016.

Dezenas de refugiados concentram-se todas as noites no parque Maximilien, em Bruxelas (Fotografia: DR)

Um ano antes, a situação problemática que se vivia naquele parque de Bruxelas — as rusgas policiais contra os refugiados eram frequentes e muitas vezes terminavam em agressões violentas — motivou o aparecimento espontâneo de um grupo de voluntários, a Plataforma Cidadã de Apoio aos Refugiados. Formado por várias associações da sociedade civil com o apoio de dezenas de voluntários, a plataforma começou por tentar garantir o essencial àqueles refugiados que ali se juntavam: refeições quentes, cuidados básicos de saúde, apoio psicológico e tendas para alojamento temporário. Um acordo com o governo permitiu depois à plataforma ter acesso a um edifício ali perto, onde passou a funcionar a parte administrativa do grupo, que a dada altura já era composto por várias dezenas de voluntários.

Foi neste contexto que Adriana recebeu um telefonema da sua amiga em Bruxelas. “Como ela sabia que eu me preocupava com esta questão dos refugiados e sabia da minha intenção de fazer um ano sabático, propôs-me que viesse um mês colaborar com a plataforma, e ficava alojada em casa dela. Comprei logo um voo e fui. Foi a minha oportunidade de fazer alguma coisa em concreto”, conta Adriana, admitindo que tudo foi feito “à pressa”. “Falei com a minha amiga e depois disse aos meus pais que ia para um campo de refugiados em Bruxelas”, lembra.

Quando Adriana aterrou em Bruxelas, a plataforma já tinha uma estrutura organizada e o campo de refugiados já tinha sido praticamente todo desmantelado, com a maioria dos sírios e iraquianos a verem os seus processos de integração relativamente avançados. Eram precisos voluntários para garantir o funcionamento do apoio a estas pessoas no processo. “Apareci lá um dia e supostamente era preciso inscrever-me num grupo de Facebook, por isso mandaram-me ir preencher o formulário. E eu respondi-lhes: ‘Eu vim de Portugal de propósito para aqui, não me mandem de volta para o Facebook’.”

Ficou a trabalhar na receção do centro de acolhimento da plataforma, numa altura em que os refugiados que chegavam a Bruxelas eram sobretudo sírios e iraquianos. “As coisas desenvolveram-se e entrámos numa fase de maior integração. Era uma ajuda mais básica. Ajudar a encontrar casa, trabalho”, recorda a jovem portuguesa. No edifício da plataforma, funciona uma escola para crianças, uma outra escola de línguas para adultos, onde é possível aprender inglês, francês e flamengo, e ainda os serviços administrativos e de apoio social, onde as pessoas podem ser apoiadas na preparação das entrevistas necessárias para os pedidos de asilo ou cidadania. “Tudo feito por voluntários”, destaca Adriana.

“Para já, não pretendo voltar a Portugal”, assume. Até porque se no início Adriana era “uma peça do puzzle”, agora “a responsabilidade tornou-se enorme”. Primeiro, com o projeto das equipas da manhã, agora com a coordenação dos alojamentos.

Quando começou o mestrado — em Antropologia, na Universidade Livre de Bruxelas –, assumiu também a gestão dos voluntários da plataforma. Passou a estar menos no terreno e mais agarrada a folhas de Excel. “Sempre que lançávamos uma iniciativa, eu fazia um apelo, recrutava voluntários, convocava-os para um briefing e depois arrancávamos com o projeto. No início eu ainda estava com eles, mas depois havia sempre um voluntário que se destacava e que ficava a liderar a equipa. Nessa altura, eu saía de cena”, lembra.

A coordenação dos alojamentos noturnos, contudo, absorveu-lhe grande parte do tempo, e acabou por passar a gestão dos voluntários para uma outra colega. Também o mestrado está “em standby” devido à falta de tempo, mas Adriana diz que a família entendeu. “Eu disse aos meus pais que pus o mestrado em standby por causa disto. O que eu lhes expliquei foi que é isto que eu quero fazer da minha vida. Entre escrever uma tese e ler artigos sobre refugiados e ter uma experiência de campo, ter contacto com a realidade desta forma, viver este choque cultural, isto é muito melhor”, diz Adriana.

Até porque, como vai repetindo, ainda tem muito tempo para concluir o curso. “Eu tenho 23 anos. Se não acabar o mestrado neste ano acabo no ano que vem. Não estou propriamente com pressa. Ainda se não estivesse a aprender nada… Mas estou”, remata.

A vitória mais recente: o edifício onde ainda falta tudo

O projeto da rede de alojamentos na cidade também poderá ter os dias contados — pelos melhores motivos. A mais recente vitória negocial da plataforma foi a cedência, por parte do governo belga, de um edifício onde poderão ser alojadas dezenas de pessoas. Foi uma vitória, mas Adriana não quer já festejar. Há muito trabalho a fazer. “O Estado deu-nos acesso a um edifício, com renda e despesas pagas. Mas é só. Agora precisamos de voluntários para lá estar em permanência, precisamos de material. Estamos a começar esse processo agora”, conta.

No edifício da plataforma funcionam vários serviços de acolhimento e apoio aos refugiados, e é lá que Adriana passa muito do seu tempo (Fotografia: DR)

O edifício, um antigo prédio de escritórios nos arredores da cidade, perto do aeroporto, “não é propriamente um sítio para dormir”, e ainda está por mobilar. Por isso, ainda ninguém dorme lá. “Não queremos começar um projeto sem condições para tal, sem ter tudo pronto”, destaca. Depois de recrutar voluntários disponíveis para assegurar o acolhimento e a segurança do edifício, é também preciso recolher camas, lençóis, mantas, toalhas, duches e todo o tipo de material necessário para equipar o edifício.

Para já, está a correr bem. A primeira campanha lançada foi para comprar material para montar os duches. Em quatro horas, a plataforma conseguiu recolher 10 mil euros. A abertura do edifício poderá estar, portanto, para breve. Enquanto isso, Adriana continuará a estar todas as noites às 20h00 no parque Maximilien, com o telemóvel, a coordenar o alojamento de mais 300 refugiados, que ali vão continuando à espera.

observador.pt