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O regresso de uma estrela

Quinze anos depois de ter emigrado e de se tornar uma das maiores especialistas mundiais, a estrela portuguesa da astrobiologia regressa às origens. Zita Martins, 38 anos, estava no Imperial College London (Reino Unido), uma das melhores universidades do mundo, e resolveu voltar para Portugal. É o regresso ao Instituto Superior Técnico (IST) onde fez a licenciatura em Engenharia Química. E com uma coincidência feliz: vai trabalhar em investigação e no ensino no Departamento de Química, presidido por Teresa Almeida, que foi sua professora. A astrobiologia é uma ciência emergente e mediática em todo o mundo, que estuda a origem da vida na Terra e os sinais de vida nos meteoritos, em Marte, nas luas do Sistema Solar ou em planetas extrassolares. E pela primeira vez esta área de investigação é criada em Portugal.

“Vou começar no próximo ano como professora associada do IST e na investigação vou trabalhar nas áreas de cosmoquímica e astrobiologia”, revela Zita Martins. “Tem tudo a ver com a formação do nosso Sistema Solar, estudar todas as reações químicas e, por outro lado, ver como é que a vida começou no nosso planeta e se existe noutras partes do Universo.” Está visivelmente feliz “com esta oportunidade de ouro”, porque pode finalmente “realizar o sonho de trazer a astrobiologia para Portugal e ainda para mais numa instituição como o IST”.

Mas há quem não mostre a mesma felicidade. “Estou muito triste por ela ter regressado a Portugal, porque o Reino Unido está a perder uma cientista e uma comunicadora de ciência superdotada”, confessou ao Expresso Adam Rutherford, apresentador de programas de televisão e de rádio sobre ciência na BBC. “A nossa perda é o vosso ganho, mas ela será sempre a primeira pessoa que vou contactar quando tiver alguma pergunta para fazer sobre a vida no Universo.” Adam trabalhou com Zita Martins durante quase dez anos, em programas de divulgação onde discutia a sua investigação e a de outros cientistas na astrobiologia e na origem da vida. “É apaixonada e muito experiente, mas também divertida”, conta o apresentador da BBC. “Organizei debates e eventos com ela e outros cientistas seniores bem conhecidos, mas onde a assistência só a inundava de perguntas sobre o seu trabalho ou queria ver e tocar nos meteoritos que costumava trazer.”

Zita conta ao Expresso que sempre teve um fascínio pela química, mas queria aplicar a química ao cosmos e tinha o sonho de trabalhar neste domínio. “Como não havia astrobiologia em Portugal decidi ir para fora, mas sempre com o objetivo de um dia voltar e trazer todos os contactos e conhecimentos, assim como colocar Portugal no mapa desta área de investigação.” Tem uma paixão pelos meteoritos e desde o início da sua carreira que desvendar os seus segredos tem sido uma das suas principais tarefas.

UMA BOLSA DE UM MILHÃO DE LIBRAS

Saiu de Portugal com uma bolsa de 90 mil euros da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) para fazer em quatro anos um doutoramento em Química na Universidade de Leiden, a mais antiga e prestigiada da Holanda. Em 2009 integrou um grupo de cientistas que ganhou uma bolsa de sete milhões de dólares da NASA para desenvolver projetos de investigação no Instituto de Astrobiologia da agência espacial. Ao mesmo tempo ganhou uma bolsa de um milhão de libras da Royal Society, a mais antiga instituição científica do mundo (357 anos), para trabalhar durante oito anos na investigação em astrobiologia no Imperial College London. Mais tarde, em 2014, integrou nova bolsa coletiva da NASA de oito milhões de dólares.

“A bolsa da Royal Society é mais um prémio, porque ninguém dá uma bolsa de um milhão de libras”, constata Zita Martins com um largo sorriso, “e no meu contrato dizia que era para trabalhar em investigação, o que é algo muito raro porque geralmente num emprego universitário tem de se fazer um equilíbrio entre investigação e ensino”. Mas com o avançar dos anos “não se faz só investigação mas também comunicação de ciência ao público, passa-se o tempo em reuniões e a supervisionar uma equipa e dá-se aulas, embora num período de tempo mais limitado”. O semestre de inverno de Zita no Imperial College era mais ocupado a dar aulas — ciências planetárias e ciências do ambiente aos alunos do 1º ano — e o semestre de verão era mais dedicado à investigação.

“Tinha um contrato não tenure track, isto é, eu tinha o meu próprio dinheiro e era a minha própria patroa, digamos assim, com a bolsa da Royal Society. A partir daí era tratada como membro permanente do staff do Imperial College e podia-me candidatar aos financiamentos que quisesse.” E a verdade é que ganhou bolsas mais pequenas da própria Royal Society (três mil e 12 mil libras) e da agência espacial holandesa (250 mil euros), além dos dois avultados financiamentos coletivos da NASA.

A grande bolsa da Royal Society terminou em setembro e em outubro Zita Martins foi contratada pelo Instituto Superior Técnico, depois de um concurso público, e regressou a Lisboa. Para ganhar mais? “O custo de vida em Londres é altíssimo, as rendas, os transportes, e a qualidade de vida que tenho em Lisboa é fundamental. Dizer se ganho mais ou menos torna-se ridículo”, esclarece a cientista. “Não é surpresa o que vou ganhar porque está tudo tabelado, fui contratada como professora associada. A bolsa da Royal Society acabou em setembro, mas tive ofertas de emprego permanente no Reino Unido e em universidades muito boas no resto da Europa, ou seja, não regressei a Portugal por falta de trabalho.

ZITA PODIA TER SIDO BAILARINA

Podia ter sido bailarina, porque fez ballet dos quatro aos 13 anos e por duas vezes a professora insistiu com a mãe que a filha devia estudar no Conservatório de Lisboa e seguir a carreira artística. Um teste psicotécnico feito durante o ensino secundário não ajudou muito: tinha uma vocação forte nas ciências e nas artes. Mas o seu grande interesse pelo famoso astrónomo americano Carl Sagan e pela sua série de televisão “Cosmos” acabaram por marcar o rumo do seu destino profissional. Zita Martins gostava muito de ciência e apaixonou-se pela astrofísica e pela astrobiologia. De tal maneira que resolveu aprender russo entre os 15 e os 19 anos, devido ao importante papel da Rússia na corrida ao espaço. Foi na escola da Associação Portuguesa de Amizade e Cooperação Iuri Gagarin, nos três primeiros anos, e na Universidade Nova de Lisboa, no quarto ano. A mãe e os dois irmãos, mais velhos do que ela, não gostam de aparecer nos media, apesar das solicitações. Em todo o caso, deixaram uma mensagem: apoiam a 100% tudo o que Zita Martins faz e estão muito felizes com o seu regresso.

Em Londres a cientista resolveu aprender aikido, uma arte marcial japonesa praticada por alguns bailarinos. Aplicada, chegou a cinturão negro, 1º dan. Ultimamente não tem praticado mas vai regressar em breve e está agora à procura do melhor dojo em Lisboa para o fazer. “Sempre fui muito fascinada pelo Japão e pela filosofia oriental”, afirma Zita Martins, “e o aikido é fantástico porque permite aplicar a força e a agressividade do adversário contra ele próprio”. É uma arte marcial sofisticada, harmoniosa, elegante e de grande beleza, que só usa técnicas de defesa “e pode ser praticada por pessoas mais pequenas, como eu”. Mas é muito mais do que um desporto, “porque tem uma filosofia de disciplina, de ética e de honra que pode ser aplicada no nosso dia a dia”.

A sua grande amiga Andreia Azevedo Soares, jornalista freelancer especializada em ciência, que vive em Genebra (Suíça), conta ao Expresso que Zita “não ficou deslumbrada com o sucesso alcançado, não mudou e nunca deixou de prestar atenção aos amigos e à família, continuando fiel às relações que tinha e aos seus valores”. E ser fiel aos valores “é muito importante porque a ciência também é feita de ética”. É muito interessada pela cultura, “adora espetáculos de ópera, música, dança, lê muito, o que é importante, porque dá-lhe ferramentas para destruir o estereótipo do cientista que é um bocado nerd, que vive numa torre de marfim, alheado da sociedade”. Teresa Duarte, que foi professora de Zita Martins na cadeira de Métodos e Instrumentos de Análise do curso de Engenharia Química do Instituto Superior Técnico, recorda que ela “era uma aluna aberta, faladora, inteligente e muito dinâmica, que levava sempre um objetivo até ao fim”. Era também “boa comunicadora” e esteve numa licenciatura onde vários alunos “estão hoje fora do país”.

UMA DESCOBERTA “INCRÍVEL”

“O que mais me impressionou na Zita foi a maneira como ela lidava com as adversidades”, lembra Daniel Glavin. O investigador e diretor associado para a ciência estratégica do Centro Goddard de Voos Espaciais da NASA, que trabalhou com ela durante 15 anos, conta ao Expresso que há uns anos estavam “a investigar a origem das bases nitrogenadas (componentes orgânicas que contêm azoto) no famoso meteorito Murchison, e Zita trabalhou durante muito tempo para extrair e purificar uma amostra do meteorito na Universidade de Leiden”. Quando enviou as amostras pelo correio para a NASA, “perderam-se depois da entrega nos serviços da agência e ela teve de repetir todo o processo, o que lhe ocupou um mês de trabalho difícil, mas lidou extremamente bem com o stresse e com as más notícias”. E no final, “completou a experiência com sucesso e foi a primeira cientista do mundo a medir a composição isotópica (dos isótopos, variantes de um elemento químico) das bases nitrogenadas num meteorito, que provou a sua origem extraterrestre. Foi uma descoberta incrível que se mantém até hoje”.

O meteorito Murchison, que caiu em 1969 perto da cidade do mesmo nome na região de Victoria, Austrália, é um dos mais estudados do mundo devido à sua massa — pesa mais de 100 kg —, ao facto de a sua queda ter sido observada e por pertencer a um grupo de meteoritos ricos em componentes orgânicos (substâncias químicas que contêm carbono na sua estrutura). Ao todo, Zita Martins esteve seis meses na NASA, mas à distância e em rede tem continuado a trabalhar numa série de projetos de investigação com a agência espacial americana, que visita de vez em quando. Uns meses depois de ter começado o seu doutoramento na Universidade de Leiden, em 2003 — a tese intitulava-se “Análise química de moléculas orgânicas em meteoritos carbonácios” — foi fazer uma apresentação do seu trabalho e na assistência estava um investigador da NASA.

“Ele ouviu a minha apresentação, foi ter comigo e disse-me: ‘Vem trabalhar connosco como cientista convidada da NASA’”, recorda Zita Martins. “Fui em dois períodos de tempo diferentes, em 2005 e 2006, e analisava meteoritos para saber se determinadas moléculas, as bases nitrogenadas, que fazem parte do nosso código genético, já tinham sido detetadas em meteoritos.” O problema é que “até àquela altura não havia equipamento ou tecnologia que dissesse que aquelas moléculas eram extraterrestres ou se eram simples contaminação terrestre. E o trabalho que eu estava a fazer era provar isso pela primeira vez, porque a NASA passou a ter o equipamento necessário”. Mas não era fácil. “Todo o processo para otimizar a extração das moléculas dos meteoritos demorou quase três anos a ser conseguido.”

Um dia, uma secretária da NASA perdeu as amostras otimizadas e o trabalho paciente e intenso de Zita foi por água abaixo. “Acabei por voltar para Leiden e extrair tudo novamente dos meteoritos. E todo o processo que tinha demorado quase três anos a otimizar teve de ser repetido em pouquíssimos meses, ainda por cima quando eu estava no final do terceiro ano do doutoramento”, conta a investigadora. “Tive de matar-me a trabalhar mas consegui, voltei para a NASA no início de 2006, obtivemos resultados e em 2008 publicámos um artigo muitíssimo citado tanto por colegas cientistas como pela imprensa internacional, intitulado ‘As bases nitrogenadas extraterrestres do meteorito Murchison’. Portanto, teve um final feliz.”

A primeira assinatura do artigo, publicado na revista “Earth and Planetary Science Letters”, era de Zita Martins, e seguiam-se nomes como Daniel Glavin, da NASA, ou Pascale Ehrenfreund, da agência espacial alemã e orientadora da tese de doutoramento de Zita na Universidade de Leiden. A passagem pela NASA “foi muitíssimo interessante e mais um sonho tornado realidade. Trabalham-se muitas horas mas ao mesmo tempo há financiamento e as pessoas foram todas simpatiquíssimas, deram-me todas as condições para eu conseguir obter os meus resultados na investigação que fazia. Até hoje continuo a colaborar com a NASA e tenho lá não só grandes colegas como grandes amigos”.

UMA COMUNICADORA POPULAR

A ciência não se faz só de investigação, mas também de divulgação e comunicação dirigida ao grande público. E como disse ao Expresso Adam Rutherford, apresentador de programas de TV e de rádio da BBC, Zita Martins “é uma comunicadora de ciência superdotada”. Solicitada frequentemente pelos media, já deu mais de 100 entrevistas a canais de televisão, jornais, revistas e publicações online. No Reino Unido isso aconteceu na BBC (em quatro canais de TV e dois de rádio), Channel 4, ITV News, Sky News, ou nos jornais “The Guardian”, “Sunday Times”, “The Telegraph”, “The Times”, “Daily Mail”, “The Independent”, “Financial Times” e “Nature World News”. Noutros países deu entrevistas ao canal France 24, à Euronews, ao jornal nacional da TV Globo, à TV pública do México, a televisões e rádios portuguesas, à Radiotelevisão Sérvia. E também a publicações como o “El Economista” (Espanha), “Herald Sun” (Austrália), “Top News New Zealand” (Nova Zelândia), “National Geographic”, “Wired” e “Discover Magazine” (EUA).

Zita tem participado também em muitas conferências, palestras, debates e festivais de ciência em todo o mundo. “Tive formação em comunicação de ciência na BBC”, refere a astrobióloga. “A BBC fez um casting, porque notaram que havia poucas mulheres cientistas na TV, nas rádios e nos jornais. Concorreram mais de 2000 pessoas, selecionaram 60 e eu fiquei neste grupo, onde só havia dois estrangeiros. Depois tive formação nos estúdios da BBC em Londres ao nível de TV, rádio, de apresentar, de entrevistar alguém ou de ser entrevistada, de como escrever um texto ou um programa de televisão, etc. E a partir daquele momento, a BBC e outros meios de comunicação ficaram com uma base de dados. Estou nessa base de dados e quando é preciso alguém para falar de ciências planetárias chamam-me a mim.”

Em média Zita Martins fazia uma atividade de comunicação de ciência por mês nos media, em muitos festivais de ciência, palestras em museus e escolas. “Ainda em novembro estive em Londres porque me convidaram a dar uma palestra organizada pela revista ‘New Scientist’ sobre a origem da vida e depois houve um painel de discussão. Portanto, apesar de ter saído de Londres e de estar em Portugal, continuo a ser chamada e a manter os contactos que tinha.”

Hoje há doutoramentos nesta área “e sei de colegas e amigos que tiraram o doutoramento em comunicação de ciência no Imperial College”, assinala Zita Martins. “É uma ferramenta fundamental, porque acima de tudo trabalhamos em centros de investigação ou universidades que são, numa boa parte, financiados pelo Estado e, portanto, por todos os contribuintes. E estes têm o direito de saber para onde vão os dinheiros públicos.” Mas há ainda outra razão: “Precisamos de puxar pela próxima geração de cientistas, de incentivar os jovens para a ciência, e nada melhor do que ter um cientista a explicar.” Por outro lado, “quando fazemos propostas para conseguir financiamento, temos de incluir um capítulo onde explicamos que atividades de comunicação de ciência vamos fazer”.

“Se não sei explicar a minha ciência ao público em geral, como vou conseguir escrever um artigo científico? No fundo, um bom comunicador de ciência percebe exatamente o que está a fazer e explica-o por palavras simples e acessíveis”, subinha a astrobióloga. “É muito bonito fazermos ciência abstrata, mas temos de a trazer para o dia a dia. Um curso superior na área da ciência enche-se de alunos se alguém ficou fascinado por um tema científico e escolheu uma licenciatura relacionada com ele. Se falarmos com pessoas da minha geração e até um pouco mais velhas, constatamos que todos nós fomos para a área da ciência porque víamos programas de TV, do Carl Sagan, do David Attenborough, do Jacques Costeau.”

A CIÊNCIA DEVE SER PARTILHADA POR TODOS

A amiga e jornalista Andreia Azevedo Soares, que a conheceu quando estava a fazer um doutoramento em comunicação da ciência no Imperial College de Londres, lembra que Zita Martins “nunca achou que a ciência que desenvolvia era só para ela, pelo contrário, achava que devia ser partilhada, porque o conhecimento científico e a sua compreensão é para todos”. E a prova dessa visão “é a quantidade de palestras que tem dado em todo o lado, em que acaba por sacrificar o seu tempo livre, que podia usar de outra maneira”. Andreia reconhece “que a astrobiologia é sexy mas, ao mesmo tempo, é extremamente difícil de explicar ao público”. Mas Zita “usa uma técnica de comunicação muito eficaz, mostra sempre um meteorito ou fotos dele nas palestras, e a partir daí há informação intangível, que não se mostra com meteoritos, mas que ela transmite muito bem”.

Martyn Poliakoff, que era professor catedrático da Universidade de Manchester e um dos vice-presidentes da Royal Society quando Zita Martins ganhou a bolsa de um milhão de libras da instituição, espera que a astrobióloga “seja capaz de ajudar a fortalecer a colaboração científica entre o Reino Unido e Portugal, não apenas na sua área mas em toda a ciência”. O académico conta ao Expresso que há cinco anos assistiu em Londres a um encontro da Associação Portuguesa de Investigadores e Estudantes no Reino Unido (PARSUK). “Zita era a organizadora e fiquei imediatamente impressionado pelo seu entusiasmo.” Depois cruzaram-se em numerosas ocasiões e, em 2014, Martyn Poliakoff convidou-a para copresidente da comissão organizadora do encontro entre o Reino Unido, o Brasil e o Chile sobre “Fronteiras da Ciência”, e para organizar a sessão sobre “Ciências do Espaço”. “O entusiasmo de Zita foi, sem dúvida, um fator decisivo para transformar esse encontro num grande sucesso.”

Mas as vantagens do seu regresso a Portugal parecem não ter fim. “É com enorme agrado que vejo o regresso de Zita Martins ao nosso país”, confessa o coordenador do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço (IA), onde trabalham 2/3 dos astrofísicos portugueses. José Afonso adianta que “a astrobiologia é um campo de investigação em grande crescimento, impulsionado pelas descobertas recentes sobre a existência de condições de vida pelo Universo”. Por isso, o dirigente vê “muitas possibilidades de colaborações frutuosas entre Zita Martins e os investigadores do IA, que assumem posições de destaque a nível internacional no estudo de planetas extrassolares e atmosferas planetárias”. Portugal, através do IA, “tem uma participação muito intensa em instrumentos e missões de enorme relevância para a astrobiologia, como o ESPRESSO, que estamos neste momento a instalar no ‘Very Large Telescope’, do Observatório Europeu do Sul (ESO), no Chile. Ou, num futuro próximo, as missões Cheops, da Agência Espacial Europeia (ESA), e o instrumento HIRES, a instalar no telescópio ELT, também no Chile”.

No Instituto Superior Técnico (IST), Zita vai continuar a fazer exatamente o que fez até agora no Imperial College de Londres. “Só vou mudar de país e de instituição, isto é, de afiliação. Por isso, vou trazer para Portugal todo o conhecimento que adquiri lá fora e todos os contactos e colaborações”, esclarece a astrobióloga. “Por exemplo, faço parte de duas missões para a Estação Espacial Internacional e vou continuar com elas. Sou coinvestigadora, só que neste momento em vez de estar baseada no Reino Unido estou baseada em Portugal, o que é excelente para o país, porque vamos ter a nossa bandeirinha, o cunho português, em duas missões que irão para o espaço. De resto, vou analisar meteoritos e tenho completa liberdade para continuar a fazer a minha investigação”.

O IST “quer trazer de volta investigadores que estão fora do país e Zita tem um ano para demonstrar aquilo de que é capaz”, diz Teresa Duarte, presidente do Departamento de Engenharia Química onde a astrobióloga vai trabalhar e cruzar-se com uma equipa de 130 professores e investigadores. A professora catedrática reconhece que a cientista “vai trazer ligações às agências espaciais e um conjunto de contactos internacionais muito importantes para o IST”. Zita explica que o seu objetivo como professora associada “é ensinar uma cadeira ou um módulo de astrobiologia e química do cosmos, que não existe hoje em Portugal. E mesmo em todo o mundo as universidades não ensinam astrobiologia como cadeira autónoma nas licenciaturas e mestrados, à exceção de uma universidade nos EUA e outra no Canadá”. A astrobióloga acha, por isso, que a sua vinda para Portugal “é uma grande aposta do IST numa profissão de futuro, o que vai atrair muitos estudantes, porque os jovens interessam-se imenso pela astrobiologia. Enfim, é um investimento fantástico”.

expresso.sapo.pt